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segunda-feira, 1 de junho de 2026

Poema do mês | ESAN

O último poema do ano letivo de 2025-2026, da autoria de García Márquez.

Nada volta a ser o mesmo duas vezes.
Nem o amor.
Nem as Pessoas.
Nem a vida...
Com o tempo tudo passa.
Vi, com alguma paciência,
o inesquecível tornar-se esquecido e o necessário sobrar.

           Gabriel García Márquez



 

Poema do mês | EBAR

 O poema do mês é da autoria da escritora Maria Teresa Maia Gonzalez. Boas leituras!



segunda-feira, 4 de maio de 2026

Poema do mês | EBAR

 O poema do mês de maio é da autoria de António Mota e tem como título «Numa casa muito estranha».

 



segunda-feira, 27 de abril de 2026

Poema do mês | As mãos, de Manuel Alegre


Com mãos se faz a paz se faz a guerra.

Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema - e são de terra.
Com mãos se faz a guerra - e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas, mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor, cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.


Manuel Alegre, O Canto e as Armas

sexta-feira, 13 de março de 2026

Poema do mês "Eu quero morrer no mar" de António Lobo Antunes | ESAN



Olha os meus olhos morena

porque a aventura é ficar

se a minha terra é pequena

eu quero morrer no mar.

Lençóis de algas e peixes

de barcos a menear

no dia em que tu me deixes

eu quero morrer no mar.

E se o negro é tua cor

respirando devagar

depois de amor meu amor

eu quero morrer no mar.


António Lobo Antunes

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

terça-feira, 22 de abril de 2025

Poema do mês de abril/maio

 

São Leonardo da Galafura

 

À proa dum navio de penedos,

A navegar num doce mar de mosto,

Capitão no seu posto

De comando,

S. Leonardo vai sulcando

As ondas

Da eternidade,

Sem pressa de chegar ao seu destino.

Ancorado e feliz no cais humano,

É num antecipado desengano

Que ruma em direcção ao cais divino.

 

Lá não terá socalcos

Nem vinhedos

Na menina dos olhos deslumbrados;

Doiros desaguados

Serão charcos de luz

Envelhecida;

Rasos, todos os montes

Deixarão prolongar os horizontes

Até onde se extinga a cor da vida.

 

Por isso, é devagar que se aproxima

Da bem-aventurança.

É lentamente que o rabelo avança

Debaixo dos seus pés de marinheiro.

E cada hora a mais que gasta no caminho

É um sorvo a mais de cheiro

A terra e a rosmaninho!


Miguel Torga

 

sexta-feira, 7 de março de 2025

Poema do mês de março na BE da ESAN - Mulheres à beira-mar


 No mês em que se comemora o dia da mulher, um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen.


Mulheres à beira-mar


Confundindo os seus cabelos

com os cabelos do vento,

têm o corpo feliz de ser tão seu

e tão denso em plena

liberdade.


Lançam os braços pela praia

fora e a brancura dos seus

pulsos penetra nas espumas.


Passam aves de asas agudas e a

curva dos seus olhos

prolonga o interminável rasto

no céu branco.


Com a boca colada ao horizonte

aspiram longamente

a virgindade dum mundo que

nasceu.


O extremo dos seus dedos toca

o ponto de espanto e de

vertigem onde o ar acaba e

começa.


E aos seus ombros cola-se uma

alga, feliz de ser tão verde.


Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Poema do mês de novembro-dezembro

EVOCAÇÃO À TEMPESTADE 
(...)
Do arcanjo do extermínio 
O gládio chamejante 
Ostente-se radiante 
De ameaçadora luz; 
Da tempestade às fúrias 
Assistirei sorrindo 
E bradarei: Bem-vindo! 
O génio que a conduz. 
Benvindo, sim, que eu sinto 
No seio mais violenta 
Uma cruel tormenta, 
A luta das paixões. 
Procuro o mar furioso 
Como um seguro adilo, 
Arrosto-o e não vacilo
Das ondas aos baldões.
(...)
Júlio Dinis. In Poesias 

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Poema do mês de outubro na BE da ESAN - Quando eu sonhava


 

Quando Eu Sonhava

Quando eu sonhava, era assim
Que nos meus sonhos a via;
E era assim que me fugia,
Apenas eu despertava,
Essa imagem fugidia
Que nunca pude alcançar.
Agora, que estou desperto,
Agora a vejo fixar...
Para quê? - Quando era vaga,
Uma ideia, um pensamento,
Um raio de estrela incerto
No imenso firmamento,
Uma quimera, um vão sonho,
Eu sonhava - mas vivia:
Prazer não sabia o que era,
Mas dor, não na conhecia ...

Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

Poema do mês de setembro na BE da ESAN


 

Verbo

Ponho palavras em cima da mesa; e deixo
que se sirvam delas, que as partam em fatias, sílaba a
sílaba, para as levarem à boca - onde as palavras se
voltam a colar, para caírem sobre a mesa.

Assim, conversamos uns com os outros. Trocamos
palavras; e roubamos outras palavras, quando não
as temos; e damos palavras, quando sabemos que estão
a mais. Em todas as conversas sobram as palavras.

Mas há as palavras que ficam sobre a mesa, quando
nos vamos embora. Ficam frias, com a noite; se uma janela
se abre, o vento sopra-as para o chão. No dia seguinte,
a mulher a dias há-de varrê-las para o lixo.

Por isso, quando me vou embora, verifico se ficaram
palavras sobre a mesa; e meto-as no bolso, sem ninguém
dar por isso. Depois, guardo-as na gaveta do poema. Algum
dia, estas palavras hão-de servir para alguma coisa.



Nuno Júdice | "As Coisas Mais Simples" | Publicações Dom Quixote, 2007

terça-feira, 4 de junho de 2024

Poema do mês de junho - Construção de Chico Buarque

Construção

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acbou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

Chico Buarque