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quinta-feira, 26 de março de 2026

quarta-feira, 26 de março de 2025

Dia da Poesia com os alunos migrantes

A celebração do Dia da Poesia ainda contou com a participação dos alunos migrantes, em colaboração com a Mediadora Linguística da escola. Estes alunos fizeram uma recolha de poemas dos seus países de origem, e alguns até se aventuraram a criar os seus próprios versos, enriquecendo a diversidade cultural da comemoração. Em breve colocaremos os poemas aqui no blogue.


segunda-feira, 24 de março de 2025

9.º As celebra a poesia e a natureza em sessão especial na Biblioteca

No dia 26 de março, no âmbito da comemoração do Dia Mundial da Árvore, da Floresta e da Poesia, a turma do 9.º As visitou a biblioteca escolar em dois turnos para uma sessão especial de poesia, acompanhada pelo seu professor de Português, Fernando Correia.

O professor António Domingos declamou diversas poesias que enaltecem a natureza e a reflexão poética, entre elas: "Se Eu Me Sentir Sono" (Fernando Pessoa), "Poema das Árvores" (António Gedeão), "Olha Estas Velhas Árvores" (Olavo Bilac), "As Árvores e os Livros" e "Raízes" (José Sousa Braga), "As Pedras" (Maria Alberta Menéres), "Canto Matinal" (Valdemar Gonçalves) e "Cada Árvore é um Ser para Ser em Nós" (António Ramos Rosa). O ambiente foi enriquecido por um fundo musical sereno e imagens alusivas ao tema, projetadas na televisão da biblioteca.

Apesar de ser uma turma reconhecidamente desafiante, os alunos demonstraram um comportamento adequado, ouvindo os poemas em silêncio e com atenção.





sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Poema do mês de novembro-dezembro

EVOCAÇÃO À TEMPESTADE 
(...)
Do arcanjo do extermínio 
O gládio chamejante 
Ostente-se radiante 
De ameaçadora luz; 
Da tempestade às fúrias 
Assistirei sorrindo 
E bradarei: Bem-vindo! 
O génio que a conduz. 
Benvindo, sim, que eu sinto 
No seio mais violenta 
Uma cruel tormenta, 
A luta das paixões. 
Procuro o mar furioso 
Como um seguro adilo, 
Arrosto-o e não vacilo
Das ondas aos baldões.
(...)
Júlio Dinis. In Poesias 

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Poema do mês de outubro na BE da ESAN - Quando eu sonhava


 

Quando Eu Sonhava

Quando eu sonhava, era assim
Que nos meus sonhos a via;
E era assim que me fugia,
Apenas eu despertava,
Essa imagem fugidia
Que nunca pude alcançar.
Agora, que estou desperto,
Agora a vejo fixar...
Para quê? - Quando era vaga,
Uma ideia, um pensamento,
Um raio de estrela incerto
No imenso firmamento,
Uma quimera, um vão sonho,
Eu sonhava - mas vivia:
Prazer não sabia o que era,
Mas dor, não na conhecia ...

Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

Poema do mês de setembro na BE da ESAN


 

Verbo

Ponho palavras em cima da mesa; e deixo
que se sirvam delas, que as partam em fatias, sílaba a
sílaba, para as levarem à boca - onde as palavras se
voltam a colar, para caírem sobre a mesa.

Assim, conversamos uns com os outros. Trocamos
palavras; e roubamos outras palavras, quando não
as temos; e damos palavras, quando sabemos que estão
a mais. Em todas as conversas sobram as palavras.

Mas há as palavras que ficam sobre a mesa, quando
nos vamos embora. Ficam frias, com a noite; se uma janela
se abre, o vento sopra-as para o chão. No dia seguinte,
a mulher a dias há-de varrê-las para o lixo.

Por isso, quando me vou embora, verifico se ficaram
palavras sobre a mesa; e meto-as no bolso, sem ninguém
dar por isso. Depois, guardo-as na gaveta do poema. Algum
dia, estas palavras hão-de servir para alguma coisa.



Nuno Júdice | "As Coisas Mais Simples" | Publicações Dom Quixote, 2007

terça-feira, 4 de junho de 2024

Poema do mês de junho - Construção de Chico Buarque

Construção

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acbou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

Chico Buarque

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Poema do mês de maio - ESAN



Sou de vidro

Meus amigos sou de vidro

Sou de vidro escurecido

Encubro a luz que me habita

Não por ser feia ou bonita

Mas por ter assim nascido

Sou de vidro escurecido

Mas por ter assim nascido

Não me atinjam não me toquem

Meus amigos sou de vidro

Sou de vidro escurecido

Tenho fumo por vestido

E um cinto de escuridão

Mas trago a transparência

Envolvida no que digo

Meus amigos sou de vidro

Por isso não me maltratem

Não me quebrem não me partam

Sou de vidro escurecido

Tenho fumo por vestido

Mas por assim ter nascido

Não por ser feia ou bonita

Envolvida no que digo

Encubro a luz que me habita


Lídia Jorge

sexta-feira, 5 de abril de 2024

Poema do mês de abril


 As mãos

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.

Com mãos tudo se faz e se desfaz.

Com mãos se faz o poema – e são de

terra.

Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se

lavra.

Não são de pedras estas casas mas

de mãos. E estão no fruto e na palavra

as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas

as mãos que vês nas coisas

transformadas.

Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.

Ninguém pode vencer estas espadas:

nas tuas mãos começa a liberdade.


Manuel Alegre, O Canto e as Armas, 1967

sexta-feira, 1 de março de 2024

Poema do mês



Sempre amei por palavras muito mais
do que devia

são um perigo
as palavras

quando as soltamos já não há
regresso possível
ninguém pode não dizer o que já disse
apenas esquecer e o esquecimento acredita
é a mais lenta das feridas mortais
espalha-se insidiosamente pelo nosso corpo
e vai cortando a pele como se um barco
nos atravessasse de madrugada

e de repente acordamos um dia
desprevenidos e completamente
indefesos

um perigo
as palavras

mesmo agora
aparentemente tão tranquilas
neste claro momento em que as deixo em desalinho
sacudindo o pó dos velhos dias
sobre a cama em que te espero"

Alice Vieira
in "O que Dói às Aves", Caminho, 2009
 

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

25 de Abril, 25 poemas

Na quarta sessão de poemas de abril, foi lido na sala dos professores o poema "Liberdade" de Carlos Marighella.



Liberdade

Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.

Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.
E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome”

São Paulo, Presídio Especial, 1939.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Poema do mês


Todas as cartas de amor são

Todas as cartas de amor são

Ridículas.

Não seriam cartas de amor se não fossem

Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,

Como as outras,

Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,

Têm de ser

Ridículas.

Mas, afinal,

Só as criaturas que nunca escreveram

Cartas de amor

É que são

Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia

Sem dar por isso

Cartas de amor

Ridículas.

A verdade é que hoje

As minhas memórias

Dessas cartas de amor

É que são

Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,

Como os sentimentos esdrúxulos,

São naturalmente

Ridículas).

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).



 

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

25 de Abril, 25 poemas

Na terceira sessão dos poemas de abril, o professor António Domingos deu o mote e o Gonçalo Castro, do 10.ºGD, recriou a leitura e desenvolveu um verdadeiro rap aplaudido por todos. Parabéns!!!
 

 

 

As mãos
Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

Manuel Alegre, "O canto e as armas"

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

25 de Abril, 25 poemas

 

Na segunda sessão dos poemas de abril, o professor António Domingos voltou a irromper pelas salas da Secundária, com o poema "Preso Político", de Fernando Assis Pacheco. "Olha bem que farás da liberdade: quando saíres, amigo, não me esqueças."


 

"Preso político

1

Quiseram pôr-me inteiro numa ficha.
O dia e a noite são iguais por dentro.
Não há papel que conte a minha vida
mais que estes versos de punhal à cinta.
A barba cresce, e cresce a voz armada
descendo pelos muros tão tranquila;
tão tranquila que já nem desespera
de ser apenas voz, não uma guerra.

Quiseram pôr-me inteiro numa ficha.
Não há papel que conte a minha vida.
Mais que estes versos, esta mão estendida
por sobre os muros só de medo e pedra.

2

Quando saíres, amigo, não me esqueças.
Fico à espera da tua novidade.
Olha bem que farás da liberdade:
quando saíres, amigo, não me esqueças.

Quero mais fazimento que promessas.
São de prata os enganos da cidade
com que outros sujeitam a vontade.
Não me esqueças, amigo, não me esqueças."

1966

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

25 de Abril, 25 poemas


 As bibliotecas do Agrupamento António Nobre deram início, no dia 13 de dezembro, na Escola Secundária, a mais uma iniciativa poética, que está a acontecer também nas escolas básicas da Areosa e Nicolau Nasoni, com a colaboração do professor António Domingos. 

Respondendo ao desafio lançado pelo Grupo Disciplinar de História, no âmbito da comemoração dos 50 anos do 25 de Abril, todas as semanas será divulgado um poema que tenha por tema a liberdade. Serão ao todo vinte e cinco poemas, e o primeiro foi “Ar livre” de Miguel Torga.

As turmas tiveram a visita inesperada do professor, que, depois de, sem aviso prévio, ler o referido poema, fez uma breve apresentação do projeto alertando para a necessidade de não deixar esquecer a importância do acontecimento histórico, sem o qual uma iniciativa como esta não seria possível…

 


 

"Ar livre 

Ar livre, que não respiro!
Ou são pela asfixia?
Miséria de cobardia
Que não arromba a janela
Da sala onde a fantasia
Estiola e fica amarela!

Ar livre, digo-vos eu!
Ou estamos nalgum museu
De manequins de cartão?
Abaixo! E ninguém se importe!
Antes o caos que a morte...
De par em par, pois então?!

Ar livre! Correntes de ar
Por toda a casa empestada!
(Vendavais na terra inteira,
A própria dor arejada,
- E nós nesta borralheira
De estufa calafetada!)

Ar livre! Que ninguém canta
Com a corda na garganta,
Tolhido da inspiração!
Ar livre, como se tem
Fora do ventre da mãe
Desligado do cordão!

Ar livre, sem restrições!
Ou há pulmões,
Ou não há!
Fechem as outras riquezas,
Mas tenham fartas as mesas
Do ar que a vida nos dá!"
 

Miguel Torga, Cântico do Homem, 1950